Paula sente-se "no chão", empurrada por cortes e mais cortes. Mário guarda dois lugares no centro de emprego: o seu e o da mulher. Manuel espera o "caos", Maria prepara-se para apertar o cinto – "que remédio". Todos esperam más notícias vindas do primeiro-ministro, que, com olhar grave, vai surgir às 20h00 desta sexta-feira na televisão e nas rádios para anunciar cortes estruturais na despesa pública.
Paula Araújo é um dos muitos portugueses que perdeu o emprego nos últimos tempos. O fim de Abril trouxe-lhe o desemprego. Aos 44 anos, como recomeçar? Encolhe os ombros, não sabe como dar a volta à vida. "Sinto-me no chão, completamente. Agora que estava na idade de ter uma vida organizada…", conta enquanto espera para ser atendida no centro de emprego de Vila Nova de Gaia.
"Pareço uma 'teenager'", diz. Pior: uma "'teenager' desesperada", com "experiência de trabalho" mas sem… trabalho. Está na fila do centro de emprego. Mais do que o subsídio de desemprego (que, avança a imprensa de hoje, será reduzido), quer retomar a vida. "Eu quero é trabalhar, mas não há trabalho."
Paula, divorciada (o ex-marido está desempregado há dois anos), com duas filhas para cuidar, gostava que o país "andasse para a frente", mas não vê "melhorias". Mário Couto, 55 anos, também não acredita. "[Da comunicação do primeiro-ministro] aguardo aquilo que já estamos habituados a ouvir: é cortes, é cortes, é cortes."
Mário está desempregado há dois anos. Mas, hoje, está na fila por outras razões: "Estou a guardar a vez para a minha esposa, que vai para a mesma situação". O número de casais desempregados atingiu este ano um valor recorde que já ultrapassa os 13 mil. Um aumento superior a 80% em pouco mais de um ano.
Precisar de comerManuel Oliveira, 59 anos, aguarda uma consulta no Hospital Eduardo Santos Silva, em Gaia. Está preocupado com os cortes que chegam ao anoitecer. Antecipa o "caos", a "bancarrota". Não tem emprego, não está reformado: espera uma oportunidade de trabalho em França. Mas nem isso está "fácil". Sem motivos para sorrir, atira aos políticos: "a barriga deles é que precisa de comer, os outros cidadãos não precisam de comer".
Maria Leite, 80 anos, a recuperar de um acidente vascular cerebral, vive com uma pensão de reforma de 350 euros. Sente-se injustiçada. "Era costureira, nunca tive uma baixa, nunca faltei ao trabalho. Trabalhei sempre, de dia e de noite."
"As pessoas estão a ficar numa situação de desespero em que não vêem alternativa para o futuro. Não sei o que vai ser disto", diz Mário Couto, igualmente à espera no hospital. "Na minha consciência, vai chegar a um ponto em que as pessoas têm que se revoltar com alguém."
Os estudantes na ruaJoão Marecos, que lidera a Associação Académica da Universidade de Lisboa, acredita que o país pode estar a ultrapassar o "ponto crítico" se houver mais cortes. O despacho que congelou a máquina pública, assinado por Vítor Gaspar, mostrou-lhe o que pode acontecer na sua universidade: a Faculdade de Medicina Dentária suspendeu aulas clínicas por não poder comprar materiais de higiene. "Imagine com os cortes", diz.
Os estudantes na ruaJoão Marecos, que lidera a Associação Académica da Universidade de Lisboa, acredita que o país pode estar a ultrapassar o "ponto crítico" se houver mais cortes. O despacho que congelou a máquina pública, assinado por Vítor Gaspar, mostrou-lhe o que pode acontecer na sua universidade: a Faculdade de Medicina Dentária suspendeu aulas clínicas por não poder comprar materiais de higiene. "Imagine com os cortes", diz.
Com mais reduções no financiamento – e o dirigente académico espera que elas sejam anunciadas –, no início do próximo ano lectivo haverá "instituições que ficam pelo caminho". Se assim for, continua, é altura de "termos os estudantes todos nas ruas". "Já não acontece há muito tempo."
Muitos estudantes ficam pelo caminho por falta de dinheiro. Muitos "não recebem bolsa [de acção social escolar] por 100 ou 200 euros".
Menos dinheiro gera paradoxos: os jovens cientistas portugueses não têm lugar nos centros de investigação portugueses, um (aparente) "excesso de qualificações" "caricato" num país que precisa de crescer, aponta o provedor do bolseiro de investigação. Arsélio Pato de Carvalho espera que Passos não anuncie cortes na ciência, "para o bem de nós todos". Seria reforçar uma velha "falta de visão" (do Governo, das empresas) - ter um país que não aproveita os "jovens altamente qualificados que tem".
Sem comentários:
Enviar um comentário